Unespar concede título de mestre ao primeiro estudante surdo do Campus de Campo Mourão
Geral, Ensino
A Universidade Estadual do Paraná (Unespar) concedeu, na manhã desta terça-feira (10), o título de mestre ao primeiro estudante surdo do Campus de Campo Mourão. Eduardo Alberto Megda, que se tornou mestre aos 42 anos, desenvolveu sua pesquisa pelo Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar Sociedade e Desenvolvimento (PPGSeD), sob orientação do prof. Dr. Ricardo Desidério da Silva, docente do Campus de Apucarana.
A defesa da dissertação, intitulada “Política de formação de professores e os desafios do ensino de Libras”, contou com a banca examinadora composta pela profa. Dra. Maria Inez Barboza Marques (Unespar), profa. Me. Luciana Dantas Ruiz (UFF) – também surda – e profa. Dra. Tânia Aparecida Martins (Unioeste).
Ao concluir essa importante etapa de sua carreira acadêmica, Eduardo expressou alegria e gratidão por ter chegado ao fim do curso de mestrado na Unespar, campus de Campo Mourão, instituição que, conforme salientou, ofereceu todo o suporte necessário para garantir a acessibilidade durante sua formação. “Agradeço muito a todos que me auxiliaram nesse processo; professores do programa, especialmente o professor Ricardo, que foi o meu orientador, intérpretes e colegas que estiveram ao meu lado nessa jornada”, ressaltou.
Dentre os desafios ao longo dessa trajetória, o pós-graduado destacou a dificuldade em acompanhar o ritmo e as demandas das disciplinas do curso, principalmente na produção escrita em língua portuguesa. Ele enfatizou que o mestrado é uma etapa exigente da formação acadêmica e que cumprir todas as atividades foi um processo desafiador. Ainda assim, ressaltou que a presença constante dos intérpretes durante as aulas foi fundamental para sua adaptação e para o aprendizado dos conteúdos. Eduardo também elogiou os(as) docentes do programa, que sempre buscaram incluí-lo ativamente nas atividades acadêmicas.
Surdo profundo desde o nascimento, Eduardo enfrentou diversos desafios e barreiras ao longo da vida. No entanto, como a surdez foi identificada pela família ainda nos primeiros anos, ele sempre recebeu incentivo para se desenvolver e seguir nos estudos.
Mesmo diante das dificuldades da época – muito antes da criação da lei que reconhece a Língua Brasileira de Sinais (Libras) como meio legal de comunicação e expressão no Brasil, por meio da Lei nº 10.436, de 24 de abril de 2002 – ele persistiu e concluiu três graduações: em Pedagogia, em Letras/Libras e em Educação Física.
Também possui especializações em Docência no Ensino Superior, Educação Física Escolar, Educação Especial: Área da Surdez – Libras, Educação Especial: Atendimento às Necessidades Especiais, Educação Infantil, Educação Especial e Transtornos Globais do Desenvolvimento e em Atendimento Educacional Especializado (AEE) e Sala de Recursos Multifuncionais.
Atualmente, é docente universitário em uma instituição privada em Umuarama, cidade onde reside. Atua, ainda, no Centro de Apoio aos Surdos e aos Profissionais da Educação dos Surdos (CAS) do município, é professor de Libras e examinador de proficiência para atuação como professor bilíngue de Libras – Língua Portuguesa Nível I.
O novo mestre não escondeu a felicidade ao concluir mais uma etapa de sua formação, dessa vez, em nível stricto sensu. “Eu me sinto muito feliz e realizado por ter concluído o mestrado na Unespar. Sou muito grato a todos que me acolheram e contribuíram para esse momento se tornar possível. Foram dois anos intensos de estudos e desafios, mas também aprendi muito”, afirmou.
Eduardo acentuou positivamente a estrutura inclusiva do Campus, que, segundo ele, ainda é encontrada em poucos lugares por onde já passou. Motivado com o novo título, o pós-graduado já pensa em dar continuidade aos estudos e, quem sabe, seguir para o doutorado.
Para o prof. Dr. Ricardo Desidério da Silva, acompanhar o Eduardo, seu primeiro orientando surdo, foi motivo de orgulho. Ele destacou o quanto também aprendeu ao longo dos anos de convivência, o que o motivou, inclusive, a aprender Libras. Ouvinte unilateral, o docente se identificou com o orientando logo que tomou contato com ele, ressaltando o acolhimento que recebeu de Eduardo ao ser reconhecido como parte da comunidade surda. “Ele me incluiu também”, disse.
Embora seja oralizado e ouvinte unilateral, o professor também enfrenta limitações auditivas, hoje minimizadas com o uso de aparelho. Diante dessa experiência, o desejo do docente é que a história de Eduardo inspire outras pessoas surdas a participarem das futuras seleções do programa.
Conforme pontuou o professor, especialmente com a chegada de Eduardo, o PPGSeD precisou se adequar para receber o público surdo. Com o ingresso do estudante no programa, a universidade contratou inicialmente com dois intérpretes/tradutores, Daiane Moreira de Abreu e Maykol Ramos, que o acompanharam do início ao fim do mestrado.
De acordo com a Lei Federal nº 13.146, de 6 de julho de 2015, as instituições devem ofertar tradutores e intérpretes de Libras para acompanhar pessoas surdas. Na Unespar, os intérpretes fazem parte da Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos (Feneis). Em 2023, a Pró-reitoria de Políticas Estudantis e Direitos Humanos (PROPEDH) publicou uma orientação com instruções sobre como solicitar profissionais da área ao órgão responsável.
Como protocolo institucional, a princípio, a mediação da comunicação em Libras durante a defesa de Eduardo seria realizada por uma intérprete do quadro efetivo da universidade, diferente dos que já o acompanhavam ao longo do curso.
No entanto, devido ao vínculo constituído com Daiane e Maykol e ao fato de ambos conhecerem profundamente a pesquisa de Eduardo, o professor Ricardo solicitou que eles permanecessem também nessa etapa final. Prontamente, o coordenador do PPGSeD, prof. Dr. Marcos Clair Bovo, atendeu ao pedido e buscou os meios necessários para viabilizar a participação dos dois profissionais, garantindo a plena inclusão do pesquisador no processo.
Acompanhar o estudante ao longo desses anos também foi desafiador para os intérpretes e, ao mesmo tempo, uma oportunidade de aprendizado. “Foi uma experiência maravilhosa. Aprendi muito com ele, foi realmente excepcional. Também foi desafiador, porque as disciplinas exigem muito preparo”, pontuou a intérprete Daiane, ao reconhecer que, embora a inclusão aconteça, ainda há muito a avançar na sociedade como um todo.
Além disso, ela avaliou a importância do estudo desenvolvido, que auxiliará, inclusive, os próprios profissionais que, assim como ela, atuam com essa população. “A pesquisa do Eduardo é extremamente relevante, porque contribui para a formação e o aprimoramento de professores e profissionais da área. Estou muito feliz e realizada por ter participado desse processo”, afirmou, com entusiasmo, a intérprete.
Já Maykol observou que, inicialmente, por não conhecer a Unespar, teve certa preocupação quanto às condições reais de inclusão na universidade, considerando a complexidade de um curso de mestrado. A percepção, porém, mudou rapidamente com o início das aulas. “Logo que começamos, percebemos que as demandas que surgiam ao longo do processo com o Eduardo eram atendidas de forma muito rápida pela universidade”, elogiou.
Ele acrescentou que, como intérprete, também se sentiu amparado pela instituição para realizar as adaptações necessárias durante essa trajetória. “Eu, como profissional e intérprete de Libras, me senti também muito acolhido, então, foi um processo de muito aprendizado e evolução. Espero que essa experiência seja um ‘pontapé inicial’ para que outros surdos também percebam que esse caminho é possível”, desejou.
Segundo o coordenador do PPGSeD, prof. Dr. Marcos Clair Bovo, formar o primeiro estudante surdo do Campus – cuja defesa de mestrado foi realizada em Libras – é motivo de orgulho e demonstra que a universidade está cumprindo seu papel no acolhimento de novos discentes, independentemente de suas necessidades.
“A defesa de mestrado de Eduardo representou um marco fundamental para a inclusão e acessibilidade no Programa de Pós-Graduação em Sociedade e Desenvolvimento (PPGSD). Inserido no contexto das políticas de cotas da universidade e contando com o suporte de intérpretes de Libras, o discente superou barreiras comunicacionais e pedagógicas. Sua trajetória envolveu êxito na mediação linguística, no domínio do conteúdo em língua portuguesa e na adaptação às metodologias docentes, culminando em uma defesa realizada em Libras e na publicação de um artigo científico – conquistas que fortalecem as políticas de ações afirmativas da Unespar”, afirmou o docente.
A diretora-geral do Campus de Campo Mourão, profa. Me. Ceres América Magalhães Ribas, enfatizou o compromisso da Unespar em ampliar o acesso ao ensino superior, tanto na graduação quanto na pós-graduação, por meio de políticas de inclusão, garantindo oportunidades para todos(as).
“A Unespar tem como princípio assegurar o cumprimento da legislação no que se refere à inclusão e à acessibilidade. Diante da demanda do primeiro estudante surdo em um programa de mestrado do Campus, não poderia ser diferente. Buscamos todos os meios necessários para garantir as condições adequadas de permanência e aprendizagem, respeitando suas especificidades. Parabenizo e agradeço especialmente ao professor Marcos Bovo, que não mede esforços para tornar o PPGSeD um espaço cada vez mais inclusivo. E parabenizo também o Eduardo, por sua dedicação, perseverança e pela conquista deste importante título, que certamente inspirará outros estudantes”, destacou a gestora.
De todos os campi da Unespar, Eduardo foi o primeiro pesquisador surdo a concluir um mestrado acadêmico. Em agosto de 2025, a pedagoga Aline Pedro Feza foi a primeira mestre surda titulada pela Unespar, por meio do Mestrado Profissional em Educação Inclusiva em Rede Nacional (PROFEI), no Campus de Paranavaí.
